terça-feira, 11 de março de 2014
Recordação
"Enquanto houver um pulsar em cada Primavera,
haverá sempre um laivo a recordar"
Menino de Mim
Uma casa no fundo, uma cancela,
a lama dum caminho em vez de rua,
um lugar na penumbra duma vela
e uma silhueta quase nua.
Sobre a mesa de pinho, uma tigela
e pedaços de luz feitos de lua...
Enquanto o sonho fica perto dela,
o resto do poema continua.
Nesta doce lembrança da distância
com as sombras da noite nas janelas
daquele quarto onde cresceu a infância
do menino que lia nas estrelas.
Naquele tempo as estrelas tinham asas...
Pairavam sobre um céu imaginário,
pousavam nos telhados doutras casas
e não tinham, sequer, abecedário.
Eram letras de traços inventados
com gestos de sinais d' acontecer,
a ficarem, no céu, dependurados,
até que o menino os fosse ler.
Na lembrança de mim, já nem soletro
o desfiar da luz dos meus enredos...
Mas,quando as estrelas estão perto,
sinto os versos dos traços, nos meus dedos!
Poema de Ulisses Duarte, que faria hoje 91 anos, in, Palavras com Distância. Julho 2010
segunda-feira, 10 de março de 2014
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Sempre em OUTUBRO
Minha Querida MÃE,
em 2010 eram 89, agora já são mais três.
Os anos passam
mas o sofrimento adensa-se!
em 2010 eram 89, agora já são mais três.
Os anos passam
mas o sofrimento adensa-se!
ANGÚSTIAS
Neste caos
onde deslizo sem sentido
qual montanha gélida e tenaz
nascem passamentos
sem passar
como cristais amorfos
sem a cor
sem a luz
do teu olhar.
Pairo no vácuo
sem tempo
sem espaço
sem pé
fico inapta
perante a dor
do sofrimento sofrido
ao cair da noite.
Habito na luz
do teu olhar
com faúlhas de lágrimas
sem brilho
onde procuro
o milagre de te encontrar!
domingo, 1 de setembro de 2013
ANIVERSÁRIO
PARABÉNS
ao exímio escritor, ANTÓNIO LOBO ANTUNES, que completa hoje 71 anos e de quem sou fã incondicional, ao longo da sua carreira. Espero sempre o seu último Livro com alegria e ansiedade.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Relembrar sempre, ULISSES DUARTE que faria hoje 90 anos.
Menino-Poeta
Menino-Poeta,
deixa-te de sonhos alados
homem-poeta,
vive a realidade do mundo.
Deixa tua alma transparente
como a luz da madrugada...
O tempo de menino-poeta
é areia recalcada
onde se miram ilusões
do mar profundo.
Nunca deixes afogar
tua alma no pensamento;
é assim a tua estrada,
íngreme, feita de escamas de vento!
Homem-Poeta
deixa tua alma ir pelo espaço...
O espaço é pequeno em tanta pequenez;
se algum dia a sentires desfalecer
pega-lhe no braço
- ela é feita de nada
e o nada não tem fim.
Agora, temos um mar poeta
ondas de sonho parado
e as conchas da praia deserta
vivem num rochedo naufragado.
Azul-Poeta
roubaste as estrelas ao menino?
E ao verem o homem vagueando
cobrem-no de luz
e vão soluçando!
Rochedo-Poeta teu negrume
é noite, escuridão:
as estrelinhas pensam no menino-poeta,
vão devagarinho, dizer-lhe baixinho:
- dá-me a tua mão.
O mar-poeta é menino-poeta!
O azul-poeta é menino-poeta!
O rochedo-poeta é homem-poeta!
O Homem-Poeta
rasga a noite escura,
pega em seus versos
cortados e recortados,
atira-os ao vento
e o seu viver perdura.
Eu queria ser o menino-poeta
e comer areia da praia deserta!
O Homem-Poeta,
rebola na lama
suja-se na podridão da exixtência
faz da vida a sua cama
e não dorme ...
Pergunta-se à consciência:
Foste íntegro,
espalhaste o sol no mundo,
andaste no mar,
venceste marés?
O teu lugar não é aqui ...
É lá, Além ao fundo
no INFINITO
onde serás quem és:
- BENDITO!
E para os vermes terrenos,
cansados de rir tanto,
serás Santo.
Em terna, ofuscada miragem
mesclada de marfim
nasceu e pereceu
"o menino de mim".
Eu queria ser o homem-poeta
e comer areia na praia deserta!
Sandra Zelly
domingo, 16 de dezembro de 2012
Os Mortos
Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.
Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
de todos eles desprendendo-se de mim.
Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?
E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos,
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentindo-me com mãos primeiras, terminais.
Autor: Manuel António Pina
in, Poesia, Saudade da Prosa, uma antologia pessoal
domingo, 21 de outubro de 2012
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