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terça-feira, 11 de março de 2014
Recordação
"Enquanto houver um pulsar em cada Primavera,
haverá sempre um laivo a recordar"
Menino de Mim
Uma casa no fundo, uma cancela,
a lama dum caminho em vez de rua,
um lugar na penumbra duma vela
e uma silhueta quase nua.
Sobre a mesa de pinho, uma tigela
e pedaços de luz feitos de lua...
Enquanto o sonho fica perto dela,
o resto do poema continua.
Nesta doce lembrança da distância
com as sombras da noite nas janelas
daquele quarto onde cresceu a infância
do menino que lia nas estrelas.
Naquele tempo as estrelas tinham asas...
Pairavam sobre um céu imaginário,
pousavam nos telhados doutras casas
e não tinham, sequer, abecedário.
Eram letras de traços inventados
com gestos de sinais d' acontecer,
a ficarem, no céu, dependurados,
até que o menino os fosse ler.
Na lembrança de mim, já nem soletro
o desfiar da luz dos meus enredos...
Mas,quando as estrelas estão perto,
sinto os versos dos traços, nos meus dedos!
Poema de Ulisses Duarte, que faria hoje 91 anos, in, Palavras com Distância. Julho 2010
quarta-feira, 21 de março de 2012
Dia Mundial da Poesia
Neste Dia quero manifestar neste cantinho, homenagem a dois grandes vultos da Arte Poética Portuguesa - um falecido aos quarenta e oito anos, recordá-Lo-emos como um editor extraordinário em mais de duas décadas da Assírio & Alvim, que nos deu a conhecer a poesia como ponte entre os vários povos e os tempos de sempre, ou seja o mundo num livro, editando em 2001 - ROSA DO MUNDO - 2001 poemas para o futuro. Estou a falar, de Manuel Hermínio Monteiro, a quem o Prémio Camões de 2011 dedicou este Poema:
Sétimo Dia
Voltámos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sózinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez .
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.
Manuel António Pina, em 25.06.01
O outro grande Senhor é Rómulo de Carvalho/António Gedeão - O Professor-Poeta (nasceu a 24 de Novembro de 1906 e faleceu a 19 de Fevereiro de 1997), transcrevo um texto do livro das suas memórias pessoais, que iniciou aos 80 anos e terminou pouco antes do falecimento.
O manuscrito foi encontrado no seu espólio pela viúva, também escritora, Natália Nunes que nem sabia da sua existência. Escolho este texto porque o acho pertinente.
"... JOVENS DE ONTEM, JOVENS DE HOJE
Os meus saudosos amigos. Havia entre nós a máxima intimidade, a máxima confiança e, contudo, dir-se-ia que éramos cerimoniosos uns com os outros. Tínhamos atenções mútuas, delicadezas de trato, e até rodeávamos de palavras cautelosas certas conversas próprias de rapazes acicatados pelos impulsos eróticos. A culpa era toda minha porque os escolhi à minha imagem e semelhança e neles procurei os meus virtuosos defeitos. Contudo tenho a impressão de que a relação entre todos, amigos e não amigos, seguia código semelhante.
Hoje, nesse aspecto, tudo se aviltou, querendo com isto dizer que a relação entre as pessoas, jovens ou não, se degradaram, isto é, baixaram de grau, seguindo determinada escala de valores em que cada valor tem o seu grau. Estou a querer fugir à inutilidade de afirmar que o passado era melhor. Era diferente, e reporto-me à escala de valores desse passado quando o comparo com o presente.
A simples apresentação exterior de um jovem já o dispõe a um comportamento cívico diferente do do meu tempo. O capitalismo americano inundou o mundo de calças e blusões de ganga, tecido que, no meu tempo, era do mais baixo preço e só usado por miseráveis. Até era muito cantado o Fado de Ganga, faduncho que ia à cena num teatro de revista e cuja personagem que o cantava fazia o papel de carroceiro, homem que lidava com carroças e com burros que as puxavam. Para o capitalismo americano, agressivo, insolente e implacável, a ganga dos trajes ainda não bastou para atrair suficientemente os compradores potenciais que constituem o universo dos jovens. Quiseram dar-lhe um ar mais degradado, mais reles. E então apareceram no mercado as calças e os blusões de ganga já com nódoas, com manchas que simularam o uso, e delidos nas costuras. Foi um êxito. Aquilo, vestido dava o ar de pessoa vadia, que tinha passado a noite estendida num degrau de uma escada, que andava a comer sopa numa lata, que era um boémio, um sonhador, um ser independente que não tinha que dar satisfações a ninguém. A isto acrescentavam o calçado que, normalmente, já não é de cabedal, nem de pano, que nunca se limpa nem se lava, e dá um ar desleixado que é tentador. As raparigas seguiram o mesmo modelo. Para estar de acordo com o traje a linguagem usada pelos jovens tem de ser desbragada, porque sempre houve uma linguagem para cada traje. Digo o que se passa, mas não o que está bem ou o que está mal. Nós não éramos desleixados na nossa apresentação. Saíamos de casa muito escovadinhos, as nossas mães vigiavam a nossa limpeza, mandavam-nos engraxar os sapatos e puxar-lhes brilho. Por isso tínhamos outra maneira de falar, de gesticular, de nos aproximarmos dos outros e dos acolhermos. Todas as coisas estão relacionadas entre si. Estas e outras. Se um sujeito de casaca e sapatos de polimento encontrava algum conhecido na rua, tirava o chapéu, dobrava-se pela cintura e informava-se da saúde de Vossa Excelência. Se era um senhor de fato completo e gravata, desbarretava-se com moderação, baixava a cabeça e perguntava à pessoa sua conhecida como tinha passado. Se era um gajo de «blue jeans» (nome dado às calças de ganga americanas), voltava a cabeça e mandava-nos bugiar. Tudo sem as suas regras, até a falta delas."
Como Poeta, transcrevo um Poema de 1961, que se encontra publicado no seu livro Máquina de Fogo e que se intitula :
Fonte : JL, Jornal de Letras, Artes e Letras de 22 de Novembro de 2006 no
Centenário do Professor.
Como Poeta, transcrevo um Poema de 1961, que se encontra publicado no seu livro Máquina de Fogo e que se intitula :
Poema do autocarro
Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro
e sem lhes perguntar porque maltratam.
Eu sei porque é que morro.
Eles é que não sabem porque matam.
Eles são pedras roladas no caos,
são ecos longíquos num búzio de sons.
Os homens nascem maus.
Nós é que havemos de fazê-los bons.
Procuro um rosto neste pequeno mundo do autocarro,
um rosto onde possa descansar os olhos olhando,
um rosto como um gesto suspenso
que me estivesse esperando.
Fonte : JL, Jornal de Letras, Artes e Letras de 22 de Novembro de 2006 no
Centenário do Professor.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
PALAVRAS
Apanhas do chão as palavras gastas,
como frutos podres; uma a uma,
no poema, formam a frase que
nunca imaginaste, com um sentido exacto.
E vês a árvorede onde cairam,
com as suas folhas de sílabas
e os seus ramos de verso, segredar-te
um musgo de sentimento ao ouvido.
Agora, as palavras são tuas. Envolvem-
-te como a hera se agarra aos muros,
e crescem por ti dentro até à alma.
Então, colhe as palavras que te enchem,
antes que caiam como frutos podres, e
oferece-as a quem passa, no cesto do poema.
Nuno Júdice
domingo, 28 de agosto de 2011
UM CANTO ...
Um canto em quatro cantos repartido:
o sonoro brado, a branda avena,
o rogo amargurado e corroído
e a vertical canção do sem-sentido.
Luís, mais perto desta a tua pena
está no parado e rápido ruído
que nos enche o papel e nos ordena
a palavra que verte, mira, acena
- e mais se me desmente o já poído
verbo no tenso engano em que me lido,
e ele me vence, em que fugaz arena!
Só nesta luta rasa e tão pequena
me entendes e te vejo na serena,
cega certeza de já ser vencido.
Pedro Tamen
o sonoro brado, a branda avena,
o rogo amargurado e corroído
e a vertical canção do sem-sentido.
Luís, mais perto desta a tua pena
está no parado e rápido ruído
que nos enche o papel e nos ordena
a palavra que verte, mira, acena
- e mais se me desmente o já poído
verbo no tenso engano em que me lido,
e ele me vence, em que fugaz arena!
Só nesta luta rasa e tão pequena
me entendes e te vejo na serena,
cega certeza de já ser vencido.
Pedro Tamen
sábado, 27 de agosto de 2011
Lápide
Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura,
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.
Miguel Torga
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
A esfinge
Até quando? Até quando iremos enganados,
A caminho do impossível horizonte,
Com um sinal de cinza sobre e fronte,
Inutilmente sensíveis e alados?
Até quando libaremos pelas taças dos mundos
Toda a maré de horror dum subterrâneo mar;
E entornaremos flores no cadáver do luar,
Cadenciados e juncundos?
Até quando teremos, como prémio, o castigo
Dos loiros triunfais, do ceptro de comando,
Num país que não vemos? Até quando? Até quando?
- Mas a esfinge é divina e o segredo é consigo.
António Manuel Couto Viana (1923/2010)
A caminho do impossível horizonte,
Com um sinal de cinza sobre e fronte,
Inutilmente sensíveis e alados?
Até quando libaremos pelas taças dos mundos
Toda a maré de horror dum subterrâneo mar;
E entornaremos flores no cadáver do luar,
Cadenciados e juncundos?
Até quando teremos, como prémio, o castigo
Dos loiros triunfais, do ceptro de comando,
Num país que não vemos? Até quando? Até quando?
- Mas a esfinge é divina e o segredo é consigo.
António Manuel Couto Viana (1923/2010)
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Letreiro
Tudo o que eu sou, o sou por obra e graça
Da comoção rural que está comigo.
Foi a virtude lírica da Raça
a herança que eu herdei do sangue antigo.
Foi esta voz que em minhas veias passa
e atrás da qual, maravilhado eu sigo.
Como um licor de encanto numa taça,
Assim se quer esse condão comigo.
Olhai-me - Eu vim de honrados lavradores.
De avós e netos, sempre os meus Maiores.
Fitaram o horizonte que hoje eu fito.
«O que estaria além de curva estreita?»
- E da pergunta a cada instante feita,
Nasceu em mim a ânsia para o Infinito.
António Sardinha (1887-1925)
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Nós, portugueses, somos castos
Nós, portugueses, somos castos.
Ninguém nos peça o que não somos.
Por isso, em nós, andam, de rastos,
Árvores de oiro com mil pomos.
Em nossos olhos moram lutos.
Os pomos de oiro estão nos ramos.
Às vezes tentam-nos os frutos
(Os pomos de oiro estão nos ramos!)
Nós, portugueses, somos castos.
Ninguém nos peça um rosto alheio.
Árvores de oiro andam, de rastos,
Partidas todas pelo meio.
Pedro Homem de Mello
Ninguém nos peça o que não somos.
Por isso, em nós, andam, de rastos,
Árvores de oiro com mil pomos.
Em nossos olhos moram lutos.
Os pomos de oiro estão nos ramos.
Às vezes tentam-nos os frutos
(Os pomos de oiro estão nos ramos!)
Nós, portugueses, somos castos.
Ninguém nos peça um rosto alheio.
Árvores de oiro andam, de rastos,
Partidas todas pelo meio.
Pedro Homem de Mello
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A CONSTRUÇÃO DO CORPO
Sempre a tentativa nunca vã ...
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu corpo mais largo e a calma força
que sobe e modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia.
Entre a alma e a luz o movimento é livre.
Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível,
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar ao fogo lúdico.
No interior centro cálido abre-se a flor da luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.
António Ramos Rosa
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Poeta militante
A poesia não é um dialecto
para bocas irreais.
Nem o suor concreto
das palavras banais.
É talvez o sussurro daquele insecto
de que ninguém sabe os sinais.
Silêncio inssurrecto.
José Gomes Ferreira
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Poema
Silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada
e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique
De resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso
Mas
todo o Poema é perfeitamente impuro.
Autor : Vasco da Graça Moura
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